Consciência Negra é tema de atividades nos CASAs Guarulhos e Vila Guilherme

Adolescentes em internação debateram racismo e elaboraram diferentes obras nas aulas da educação escolar

 

O racismo permeia o tecido social. Por se agarrar à estrutura, se manifesta de diferentes formas: desde o olhar preconceituoso da polícia, passando pela discriminação pela cor da pele até a falta de representatividade em altos cargos de empresas e na cultura. Em suas produções em sala de aula ou em oficinas com servidores, os adolescentes atendidos na Fundação CASA mostram como esse conceito se aplica no cotidiano.

Jovens que cumprem medida socioeducativa de internação nos CASAs Vila Guilherme, no Complexo da Vila Maria, em São Paulo, e Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, apresentaram nesta segunda-feira (21) o resultado das discussões e elaborações sobre os temas relacionados ao Dia da Consciência Negra, celebrado ontem (20). Cada centro socioeducativo buscou uma estratégia, tendo como norte a abordagem a partir do conteúdo curricular da rede pública estadual.

No CASA Guarulhos, o planejamento entre a equipe pedagógica e os professores da escola vinculadora, a E.E. Padre August Johannes Ferdinandus Stauder, começou em setembro, com o envolvimento dos docentes das disciplinas de Artes, Matemática, Biologia, Língua Portuguesa, Geografia, História, Educação Física, Sociologia e eletivas.

Desde o início de novembro, em todas as turmas dos ensinos Fundamental – anos iniciais e anos finais – e Médio, os adolescentes debateram e colocaram a “mão na massa”, com a produção de painéis, cartazes, apresentação musical e até roda de capoeira.

Nesta segunda-feira, divididos em salas temáticas, com direito à participação dos professores, eles explanaram sobre o que aprenderam e discutiram, por exemplo, a influência de personalidades negras na sociedade brasileira e a dificuldade do reconhecimento de seus papéis. A capoeira, orientada pelo professor de Biologia Mateus Fernandes, contou ainda com a participação ao agente de apoio socioeducativo Wilson Tadeu.

“A base do nosso trabalho é a cultura de paz, com o respeito nas relações interpessoais. Procuramos direcionar de forma positiva a discussão, de forma que o vínculo e o respeito às adversidades foram tratados de maneira mais intensa pela equipe de referência”, explica o diretor do CASA Guarulhos, Glauco Portes Fameli.

Já no CASA Vila Guilherme, a partir do livro “Pequeno Manual Antirracista”, da filósofa e escritora Djamila Ribeiro, os adolescentes foram incentivados a pensar e reconhecer atitudes racistas que já sofreram no cotidiano ou que eles até mesmo já praticaram. Além disso, o foco foi leva-los a compreender como o racismo se manifestou na história brasileira.

Os debates aconteceram em sala de aula, durante o mês de novembro, com os professores da E.E. Professora Florinda Cardoso com os jovens que frequentam o Ensino Fundamental, além de oficinas direcionadas pelo agente educacional Ezequiel Borges da Silva e a pedagoga Clelia Lucia Lopes.

O resultado prático foi uma peça teatral com a discussão sobre a discriminação policial com base na cor da pele; painéis; e a apresentação de uma música, intitulada “Falando do povo negro e minha história de vida”, escrita pelo jovem Fábio (nome fictício), de 18 anos, e que trata do preconceito que sofreu ao longo de sua existência (leia a íntegra da letra ao final).

“Por mais que o debate e o combate ao racismo tenham evoluído, ele ainda é um elemento que faz parte da organização econômica e política das sociedades e, aos discuti-lo, caminhamos rumo à democracia racial, sendo um tema importante também dentro da medida socioeducativa”, avalia a coordenadora pedagógica do CASA Vila Guilherme, Marcela Cerqueira Gonçalves”.

“Neles, a manifestação ocorre por meio do bullying, da exclusão e do preconceito tanto racial quanto de classe”, acrescenta a coordenadora pedagógica.

 

Falando do povo negro e minha história de vida

 

Menino preto da periferia andava é de bicicleta quase todo dia

Ao passar do tempo foi desenvolvendo

Entrou na vida louca e não escutou sua família

Não tinha um Air Max nem um Timberland

Às vezes andava descalço

 

Quando era criança, pediu atenção

Ninguém estendeu a mão

Graças ao meu senhor que hoje estou com os pés no chão

 

Obrigado, mãe, pelos seus conselhos

Parei para refletir

Vi que era puro e verdadeiro

E os falsos amigos que tentaram me atrasar

Mas sigo de cabeça erguida, nada vai me abalar.

 

Um menino preto da cor do pecado

População critica pela cor

Fala que é favelado, é discriminado, é desrespeitado

 

Obrigado, minha mãe, por sempre estar do meu lado.

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